As ferramentas pioneiras

A escrita nas margens dos livros sempre foi uma atividade essencial para o leitor, especialmente o acadêmico. Grifos e anotações auxiliam no processo de aprendizagem e, no meu modo de ver, tornam a leitura uma espécie de jogo. Mas nem sempre a internet contou com boas ferramentas de anotações, o que manteve diversos leitores dependentes dos livros de papel por muito tempo.

Este é um vídeo (em inglês) bastante inspirador e que explica como andava o desafio de anotar a internet até a década de 2010. Ou seja, explica o desafio de criar uma camada de conversas a partir de cada página de internet:

Como antecipado no vídeo, as ferramentas de anotação da internet surgiram por volta de 2012, com destaque para os aplicativos Genius (exclusivo para anotação de letras de música) e para o próprio Hypothesis, autor do vídeo. Este último voltado a anotações em geral e, mais recentemente, com foco em anotações acadêmicas. A ênfase acadêmica do Hypothesis pode ser confirmada pela sua integração com diversas plataformas de ensino.

A proposta dessa primeira geração de ferramentas foi permitir a anotação direto no navegador de internet, com auxílio de uma extensão. Isso fez com que os usuários tivessem um domínio total sobre os grifos e anotações gerados, de tal modo que qualquer leitor, na prática, pode ler as anotações dos visitantes da mesma página.

Do ponto de vista do editor, contudo, essa pode ser uma desvantagem, pois sua página termina ficando potencialmente poluída por anotações públicas, acumuladas por diversas pessoas. E imagino que, na maioria das vezes, as próprias pessoas não tenham pretendido anotar publicamente o texto, terminando por assim fazer apenas por ser esta a configuração padrão da ferramenta. Mas esse nem foi para mim o maior problema na adoção do Hypothesis.

Embora, pessoalmente, sempre tenha sido um entusiasta do Hypothesis (principalmente por ser open source), sua administração terminou se revelando onerosa para mim, pois é difícil fazer a moderação das anotações. Mas, se esse não é um problema para você, o Hypothesis pode ser uma ferramenta incrível, pois tem muitas funcionalidades sofisticadas. Por exemplo, permite grifar, selecionar tags, responder a anotações e anotar em grupos, entre outras funcionalidades.

As ferramentas acadêmicas

Em 2016 o PaperHive surgiu com uma proposta diferente, permitindo a anotação sobre artigos científicos de determinados repositórios. O sistema, portanto, depende da adesão do editor à ferramenta e não se volta à anotação da internet como um todo. Estão entre seus objetivos: facilitar a compreensão de conceitos complexos por meio de anotações e permitir aos pesquisadores gerir anotações tomadas sobre documentos pertencentes aos repositórios científicos credenciados.

Além disso, como é o caso do RedCube, aplicativos de anotação acadêmica geralmente contam alguma funcionalidade de recomendação de leitura, criação de rede social e notificação sobre novos artigos científicos. As funcionalidades não variam tanto, o que varia geralmente é a qualidade do acervo administrado pelos editores que resolveram adotar uma ferramenta "oficial" para o seu catálogo.

Nessa linha, em 2017, a Remarq apresentou uma proposta tendo o objetivo de que os editores assinassem seu serviço comercialmente. Mas também lançou uma versão Lite da sua ferramenta, com a funcionalidade de anotações pessoais para qualquer interessado. Foi aí que me interessei sobre o aplicativo, pois seu modelo de negócio contempla uma versão gratuita para quem quer manter suas anotações privadas.

As ferramentas sociais

O tempo passou e surgiram outras opções com ótima execução, que não são voltadas ao mercado acadêmico. O Glasp é um ótimo exemplo em estágio inicial de execução. Trata-se de uma espécie de Twitter, no qual sua timeline é sua lista de grifos. É uma abordagem muito interessante, se você não tem problema anotar todos os seus textos publicamente, pois é justamente o seu valor. Em outras palavras, o Glasp é uma rede social construída em torno dos grifos.

Se você gostar do Glasp, mas quiser mais privacidade, o Weava tem uma implementação muito parecida, sendo mais voltada ao mercado acadêmico.

As ferramentas para múltiplas plataformas

O Readwise tem uma abordagem diferente, pois consolida os seus grifos de diversas fontes, incluindo: Kindle, Instapaper, Pocket, iBooks, etc. Com certeza é um aplicativo dominante no seu mercado e muito bem executado. Mas para nós brasileiros não é popular em função do seu preço.

Caso prefira uma conta corporativa ou familiar com vários usuários, o Swipe Basket tem uma proposta semelhante com preços mais acessíveis. No entanto, o aplicativo passou por uma recente briga entre os sócios e isso deixou o serviço fora do ar por alguns dias.

Outras ferramentas

Outras ferramentas web dignas de nota são: Markup, Marker, Liner, Pundit e BibSonomy Não me aprofundei em nenhuma delas aqui por serem caras ou não apresentarem vantagem substancial diante das minhas ferramentas de escolha.

Existe também uma opção nativa para Mac chamada Command Browser. Como o próprio nome diz, é um navegador construído em função das anotações. É uma abordagem inovadora, mas tem a desvantagem de exigir que você navegue pelo próprio aplicativo, e não pelo Chrome, como seria o natural para a maioria de nós.

Minha escolha

De uma forma geral, acho que os debates sobre textos publicados estão ocorrendo, cada vez mais, em plataformas como o Twitter. Estão ocorrendo até mesmo no Instagram, que, por mais que não seja vocacionado a texto, tem servido de plataforma de debate. Com isso quero dizer que as ferramentas de discussão estão passando por uma fase de desprestígio, fazendo também da leitura e da anotação tarefas mais solitárias.

Mesmo sem utilizar seu lado social, minha escolha foi o Glasp. Sua implementação é muito elegante e rápida. Além disso, o Glasp parece resolver os problemas que já tive com o Hypothesis, principalmente no que concerne à dificuldade de moderação em sites que administro. No entanto, para anotações em grupo (o que dificilmente faria), ainda acho que a melhor solução seria o Hypothesis.


PS: Se você se encantou por essas possibilidades, veja aqui o post de Luciana Benigno sobre escrever nas margens:

Escrever nas margens
Já há muitos anos tenho por hábito escrever nos livros que leio. Sublinho, grifo, faço comentários, discordo, desenho corações e asteriscos, faço pequenas declarações ao autor, me revolto, e por aí vai. De modo que, se encontro um livro, um capítulo, sem nenhum tipo de marcação, tenho praticamente c…