Agradeça ao seu revisor, não ao Bill Gates.

O problema da revisão

Já faz um ano que publiquei a primeira versão deste post. Desde então, muita coisa mudou e resolvi fazer uma compilação das minhas constatações e atuais angústias.

Desde o início dessa jornada, minha meta foi ser mais produtivo na escrita, especialmente quando esse processo demandava uma rotina de colaboração no trabalho - tanto para mera revisão quanto para coautoria.

Nesse contexto, o primeiro objetivo foi evitar trocas de arquivos Word por email, o que é certamente um processo improdutivo. Ao final, na maioria das vezes, não consegui convencer meus parceiros de escrita a modificar essa dinâmica, o que é compreensível, pois Word e email são ferramentas que todos usam desde que nasceram.

Confirmei que, se é difícil mudar um hábito nosso, mudar um hábito alheio é praticamente impossível.

Por isso me contentei em transformar apenas o meu processo de escrita, o que acabou sendo bom para a minha produtividade pessoal. Prova disso é que estou publicando este post, o que poderia não ter ocorrido, se eu ainda escrevesse com as ferramentas de sempre.

O problema da sincronia

Desde o início, pretendia também evitar os riscos de deixar arquivos compartilhados no Dropbox (alternativa natural ao email), pois sabemos que apenas a última versão do arquivo é salva. Ora, tudo pode acontecer em uma pasta compartilhada, inclusive tudo pode ser perdido de uma hora para a outra. Assim, a substituição do email pelo Dropbox não me pareceu uma solução desejável.

Procurando melhor, encontrei diversas formas de contornar esses problemas, sendo que ferramentas para isso podem organizadas nos seguintes grupos: editores para escrita, editores com marcas de revisão ou versionamento e editores com comentários. Mas a verdade é que qualquer solução, ao priorizar uma abordagem, sacrifica as outras.

O problema se converte, portanto, em saber qual a dimensão mais importante para você: a escrita em si, o registro da evolução da escrita ou as conversas colaterais ao texto. Qual é o verdadeiro gargalo da sua escrita? Se você respondeu que a última alternativa é a mais (ou pelo menos bastante) importante, esse texto poderá ser do seu interesse.

A abordagem mais negligenciada

De uma forma geral, considero que a perspectiva mais negligenciada pelos editores é aquela orientada a comentários. Os comentários não pretendem se fundir com o texto, e sim fornecer uma nova camada de informação, quem sabe inaugurando uma nova discussão. Por isso é mesmo muito difícil encontrar um bom editor de texto que reserve suficiente atenção aos comentários e o seu modo de ser.

Um bom exemplo de plataforma que caminha nessa última direção é o Medium. A plataforma promove o comentário a praticamente um novo fragmento de texto, iniciando conversas infinitas (threads) de mesma hierarquia diante do texto originalmente publicado. Nem sempre foi assim e o Medium já teve outra abordagem, quando tinha uma espécie de comentário inline, exibido ao lado do texto. Hoje o Medium exibe os comentários empilhados ao final do texto.

Mas, antes de mais nada, o Medium é uma ferramenta de publicação, e não um editor de texto web propriamente dito. Não recomendo de nenhuma forma que o Medium seja utilizado como solução para sua produtividade na escrita, pois ele realmente não serve para isso. De todo modo, o Medium é uma boa fonte de inspiração para pensarmos como pode ocorrer o debate em torno e por meio de textos.

Voltando ao assunto, se você prefere comentários ao lado do texto, uma possibilidade - e minha antiga escolha - seria o Hypothesis. Sempre considerei o Hypothesis uma solução melhor que seus concorrentes comerciais, como Genius ou Diigo. Esse último aparenta ter um perfil mais fechado e voltado à educação, espectro em que se encontram também o Perusall e o Kami. A ambiciosa apresentação do Hypothesis o identifica como uma nova camada sobre a internet.

Na verdade, o problema que o Hypothesis pretende resolver é tornar a internet anotável. Para tanto, sua solução mantém íntegros os links da anotação, mesmo em um ambiente no qual o texto sob anotação venha a evoluir. Como disse, outros produtos tentaram resolver o  mesmo problema. Nenhum deles, contudo, parece ser tão bom quanto o próprio Hypothesis nessa missão.

Além disso, o Hypothesis pode ser instalado dentro do seu próprio site ou blog, o que não é possível com outras ferramentas. Por fim, é open source e, naturalmente, tem vocação para integração com outros sistemas. Mas, embora seja um software inspirador, creio que o Hypothesis não seja uma boa solução para produtividade da sua escrita, nem da minha.

Nesse campo, mais recentemente, no meu modo de ver, o Coda vem evoluindo de forma imbatível. Realmente o Coda está em um nível totalmente diferente e, entre outras funcionalidades, tem uma ótima ferramenta de comentários:

Ou seja, a diferença inicial está em que, conceitualmente, o Hypothesis é uma ferramenta para comentar qualquer página na internet, enquanto o Coda é um aplicativo com uma ótima ferramenta de comentários. São missões completamente diferentes e, por isso, mais do que para solucionar seu problema de escrita, servem para delinear quais são as soluções existentes em face de problemas conexos ao tema da leitura e da escrita na era digital.

Reduzindo as barreiras para o revisor

O poder da anotação reside em que - deve ser - mínima a barreira para que o revisor colabore com o seu texto. Com isso, é mais provável que você consiga contar com aquela pessoa que não estaria disponível para colaborar dentro de uma plataforma de coautoria, por exemplo.

Não podemos deixar de considerar que, no fim, o que importa é a qualidade do texto. Assim, é importante que as ferramentas estejam alinhadas a essa finalidade.

Nesse propósito, nem sempre precisamos de uma plataforma sofisticada com controle de versão (ou seja, o texto e suas alterações), que é algo que não está totalmente dominado pela maioria dos revisores. Em contraste, ferramentas de anotação estão quase sempre ao alcance de uma pessoa minimamente disponível e podem dar muito mais retorno ao avanço do seu texto.

Não podemos deixar de considerar o poder da anotação. As ferramentas de anotação são simples e, de fato, funcionam, principalmente por respeitar o tempo e o conforto do revisor. Afinal, não existe quem escreva bem. Existe quem se dedique a revisar o texto e a criar condições para que ele alcance novos patamares de qualidade, o que será bastante mais fácil por meio da colaboração com pessoas diferentes e mais experientes.

Conclusão: a ferramenta não é o mais importante

Pessoas escrevem textos e essa não é uma tarefa simples. Por isso é importante que as ferramentas de redação e revisão tenham os autores (não os leitores) como destinatários, respeitando o seu modo de trabalhar.

Quase nunca as barreiras à escrita são visíveis, até serem descobertas. Nesse cenário, quanto mais confortável for o processo de escrita, mais produtivo o autor será. E isso se aplica, com muito mais ênfase, à tarefa do revisor.

Bem, se você tem a felicidade de contar com um bom revisor, recomendo que aproveite e trabalhe com um programa que seja do domínio dele. Esse fato é mais importante do que a escolha de qualquer ferramenta, principalmente se você tiver a chance de discutir seu texto pessoalmente.

O que esperava com este post, além de enaltecer o papel do revisor e das conversas colaterais ao texto, era apenas contextualizar algumas ferramentas voltadas à redação colaborativa.

Ainda que nenhum dos programas mencionados sejam a solução definitiva para o problema da escrita em colaboração, servem para ampliar seu rol de referências e auxiliar na escolha das ferramentas essenciais para o fluxo de trabalho que você vier a construir. Boa escrita!

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